A dor com a qual eu não me identifico, não deixa de ser dor

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Quando se fala em crime, se pensa em vítima. É automática a associação, derivativa de anos e anos de ler, ouvir e assistir notícias detalhadas sobre crimes. Se, por um lado, existe uma grande curiosidade do público em saber sobre o criminoso – curiosidade essa que se espalhou pelas diversas mídias e criou uma indústria milionária de documentários, séries e filmes sobre serial killers e casos famosos; há o outro lado, aquele que busca explorar a posição da vítima do crime. O interesse gera comoção imediata aos telespectadores, pela facilidade de se colocar no lugar de um inocente que é atacado por um criminoso e tem sua vida colocada em risco, seus bens perdidos.

É fácil se colocar no lugar da vítima, porque é algo que todos aceitamos estar sujeitos. Todos caminham, dirigem, passeiam, e todos se vêem facilmente refletidos nessas atividades inocentes e comuns ao dia a dia, com o receio de um dia, também, serem vítimas. Essa identificação é tanta, que deixa marcas na sociedade, marcas de preconceito contra populações mais pobres, taxadas como potencialmente perigosas, no investimento em recursos de segurança, câmeras, grades e, até mesmo, o interesse por armas numa suposta busca por proteção.

É fácil se colocar no lugar da vítima quando não lhe atribuímos culpa.

Quando um crime é cometido, há um grande número de pessoas indiretamente afetadas por decisões que nunca tiveram o poder de tomar: os familiares. Mas a dor da família que descobre em seu ente um criminoso não existe para diminuir de forma alguma a perda da vítima, não diminui a gravidade daquele crime – muito pelo contrário, apenas agrava a situação; e não deveria ser ignorada.

Por que é tão fácil culpar os familiares pelo crime que nunca cometeram? Ninguém pede permissão aos pais para cometer um crime, da mesma forma que não pedem permissão para fumar com os amigos naquela praça próxima ao restaurante onde os pais acreditam que eles estejam comendo. Mas por algum motivo ainda existe a estigma de que a família tem culpa, seja por ter errado na criação, seja por ter falhado em prever o imprevisível.

Uma mãe não segura seu bebê no colo imaginando que algum dia ele seja preso. Ninguém anseia por um futuro ruim para quem ama. E só quem já sentiu ou presenciou o choque da descoberta de que alguém que você ama é capaz de uma atrocidade, a dor de descobrir que aquela pessoa que você educou, criou e a quem se dedicou tanto, tem a capacidade de fazer mal ao outro, sabe que justiça nenhuma pode retirar. A mãe sabe que seu filho deve pagar pelas escolhas que fez, mas isso não diminui a perda de todos os sonhos que você um dia sonhou para ela.

Não deveria ser tão difícil assim separar as ações do preso às de sua família, basta se colocar no lugar de uma mãe que descobre que seu filho mentia para ela. E que tipo de pai não entendeu ainda que um filho não é reflexo exato da personalidade dos pais, mas sim um ser pensante e independente pletamente capaz de (e muitas vezes inclinado) fazer coisas que os pais não aprovam?

Se você conhece uma pessoa que nunca tenha mentido para os pais, que lhes contou pontualmente todos os seus segredos, desde o quanto verdadeiramente odiava os beijos molhados da tia-avó, até aquela vez em que matou aula da escola para experimentar maconha com os amigos, ou a perda da virgindade, ou de como fraudou a declaração de imposto de renda, ou como na verdade precisou daquele empréstimo no banco porque gastou o dinheiro das contas para pagar uma dívida de jogo… Bom, se você conhece essa pessoa absolutamente sincera e aberta com os pais, pergunte aos seus pais se eles nunca se decepcionaram com um filho. Porque só se decepciona quem conhece. E só se mantém preso à ilusão do conhecimento, quem se recusa a olhar para além de sua bolha.

Texto originalmente publicado no Jornal Gazeta de Alagoas em 25.08.2020, clique neste link.

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