A paciência é uma construção

stone tower, balance, meditation

07.10.2020

Ontem mesmo disse aqui que iria me esforçar a escrever e estou me esforçando. Criar um hábito parece menos difícil agora que não tenho mais tantas drogas bagunçando o meu cérebro. São 245 dias sem medicamento (continuo mantendo a contagem em um aplicativo no celular, motivo de muito orgulho). Vou comemorar quando fizer um ano, e talvez esquecer dali para frente, apenas viver sem todo aquele controle disfarçado de leveza que o remédio um dia me trouxe.

Busquei autocontrole por muitos anos e não encontrei. Então forcei, goela abaixo, à base dos medicamentos, e encontrei algo totalmente diferente. Ao invés de conseguir fazer o que me propunha – acordar mais cedo, me exercitar, melhorar a alimentação; me via refém da cama. Dormia como uma pedra e ainda assim acordava exausta. Quantas aulas da faculdade eu perdi? Quantas saídas com amigos? Festas, churrascos, noites de pizza e vinho na casa da Bruna, encontros; sempre tinha uma desculpa pronta para dar porque eu simplesmente não tinha forças para me levantar. Até o dia que eu tive.

Dizem que o desmame é a parte mais difícil para quem toma remédios controlados, mas no meu caso não foi. Eu fiz com todo o cuidado, parcimônia, paciência – mesmo não tendo nenhuma. Foram meses diminuindo a dose até aquele dia em que parei de vez. Acordei no dia seguinte me sentindo do mesmo jeito, e no seguinte, e no seguinte. Por meses cheguei a me questionar sobre eventual dano irreparável, qualquer absurdo que justificasse a demora que me afastava do que lembrava de normalidade. Mas hoje, enfim vejo a diferença.

A questão sobre mudanças é que elas nem sempre são visíveis. Na verdade, acredito que as verdadeiras mudanças, aquelas profundas que têm um impacto significativo em nossas vidas, são as mais discretas. Um dia você acorda e percebe que é tudo diferente, e nem sabe dizer quando foi que mudou. Ela vem tão sutilmente, agindo minimamente, que não se percebe até que esteja instalada. E exatamente por isso que ela é a que fica.

Como humanos, somos geneticamente programados para ir aos poucos. Uma célula de cada vez, demoramos nove meses para estarmos prontos para sair de nosso casulo. Outros vinte e tantos anos até que estejamos adaptados à sociedade louca que nossos ascendentes criaram. Para alguns, muitos mais. Maturidade é um negócio volátil. Nosso organismo não lida bem com choques graves e imediatos, precisa de tempo para se recuperar. 

Então por que esperamos que nosso coração, nossa alma, ajam diferente?

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