Ciclos

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Quando você perde uma pessoa amada, parte do processo de luto envolve o receio de sofrer novamente. A cada nova despedida, lidamos não apenas com uma perda, mas com os fantasmas de cada pessoa que se foi. Cada parente que envelheceu o suficiente para descansar em paz, e cada amigo com quem perdemos contato por ter seguido por uma estrada diferente, e distante, da nossa. Cada pessoa que fatalmente perdemos em acidentes, doenças e más escolhas, e cada relacionamento que se encerra por feridas que não poderiam ser curadas.

A verdade é que viver é se despedir. Seja pelo luto ou por escolhas difíceis, estamos constantemente nos despedindo das pessoas. Quando ainda criança, entendia cada perda com leveza, mesmo as grandes, como meu pai. Muitos achavam que era sinal de maturidade, mas vejo como simples inocência. Senti e sinto a morte do meu pai com muito mais força e dor hoje do que quando aconteceu, simplesmente porque hoje entendo tudo o que perdi.

A cada nova pessoa que se vai, por amor o por dor, fica em seu lugar o receio questionador de quem será o próximo. Acumuladas as perdas, tendemos naturalmente pelo isolamento. Para quê criar novos laços, esperanças e sonhos, se eventualmente todos vão embora? – era o que eu dizia a mim mesma, enquanto construia uma muralha atrás da outra, em um cerco que me distanciava cada vez mais das pessoas. Para quê me deixar sentir e acostumar com a presença, com o carinho, com o amor, se isso apenas faria a ausência destes ainda mais dolorida?

E assim me isolei. Por um longo período passei a ver minha melhor amiga apenas uma vez por ano, perdi contato com amigas de infância, deixei de comparecer a aniversários, noivados e até casamentos. Perdi muitas coisas enquanto me isolava em mim mesma.

Por sorte, em algum momento percebi que não queria perder mais nada. Envolta em muros, poderia até deixar de sofrer novas perdas, mas também deixaria de vivenciar momentos marcantes, gargalhadas com roncos, shows emocionantes, discussões alcoolizadas sobre qual a melhor sitcom dos últimos tempos e qual a melhor música daquela banda, momentos nostálgicos cantando hits dos anos 2000, a melhor receita de brownie que existe, a linda história de amor de um casal de amigos digna de filme, o abraço apertado da minha melhor amiga e até mesmo, quem sabe, um grande amor.

Buda ensinava que tudo na vida é cíclico. Sofrimento, felicidade, derrotas, vitórias, perdas e ganhos, seguem uns aos outros em um ciclo que não nos cabe interromper. Estamos todos sujeitos aos altos e baixos da vida, sem os quais nunca haveria o equilíbrio necessário para vermos a beleza das diferenças.

Viver é se despedir, mas também é se apresentar. É sorrir tanto quanto chorar.

É deixar que as folhas secas caiam e abram espaço para a nova folhagem.

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