Doer é resistir

Dói e eu sei o porquê ao mesmo tempo que não sei porque. Só sei que dói. Sinto a dor, dilacerada, que aperta o peito e inunda os olhos e tremula a voz. Sei que tem sons e lugares e músicas e histórias e programas e ruas que simplesmente não posso passar. Não posso. Pois se passo sinto, e se sinto choro, e se choro sou fraca. Por que já tem tanto tempo e ainda dói. E as pessoas dizem que a dor passa, que devemos curar, renovar, seguir em frente, esquecer, mas nada disso acontece.

E eu me esforço. Me distraio, me obstino a novas coisas, novos verbos, novos sons, novas pessoas, mas não são suas coisas, seus verbos, sua voz e não é você. E se não tem sua presença, tem sua ausência, e ela grita tão alto que minha cabeça dói e retoma o ciclo. Por que a verdade é que não adianta o quanto eu queira não querer, tudo o que quero continuo querendo. A falta é mais presente que qualquer presença quando a minha vontade não é suficiente para corrigir um passado que envolve outro. E essa história não me cabe porque não fui eu quem decidi. E talvez seja esse o por quê.

Talvez a dor seja exatamente marcante porque exala o descontrole. Mas não devia ser assim. A vida é um surpreender-se diário, com trapaças, esquinas, tortuosas mentiras, verdades frias e múltiplas vias que ninguém controla e todos controlam mas não entendem o poder pois ele é coletivo e somos todos indivíduos obcecados com a individualidade em tentativas de poder. E o poder está no todo e o todo nos foge quando queremos, sozinhos, controlar o que não pode ser controlado.

E vem a dor. A dor quando o outro decide por nós. A dor quando a vida nos para e não há nada que possamos fazer, falar, ou mesmo gritar, para enganar a vida, pois ela não pode ser enganada. Vivo a dor. Sinto a dor. É o choque da realidade, a crise da meia idade, a ressaca do amor perdido, a inconsolável certeza de estar à mercê do incerto. E vai continuar doendo, porque continuarei me surpreendendo com as trapaças da realidade, da idade, do amor e do incerto. E talvez, mas só talvez, uma hora pare de doer. E quando a dor parar, estarão encerrados meus aprendizados e saberei estar pronta para morrer.

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