Filhotes cegos

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Quando éramos todos crianças, ouvíamos com atenção a tudo que nossos pais falavam. E repetíamos. Uma, duas, centenas de vezes, tanto que incorporamos seus jeitos, manias e crenças, nos tornamos pedaços daqueles que nos criaram. Só mais tarde, por volta da adolescência, é que começam as rupturas. A fase é conhecidamente difícil, os adolescentes são vistos como rebeldes, a relação pai e filho se enche de conflitos, tudo porque aquela pequena criatura que absorvia e repetia as palavras dos pais começa a pensar por conta própria, na construção de sua personalidade.

Sempre vi o crescimento dessa forma, pensando que, como adultos, nos tornamos seres pensantes. Construímos a capacidade de reflexão, o tal do discernimento, que nos permite analisar o que nos cerca, analisar como nos sentimos, comparar informações, para termos nossa própria crença. A ideia é incrível, cada pessoa, com base em sua vivência, sua experiência, interpretará a seu próprio modo para construir sua opinião única e pessoal.

Ou pelo menos é assim que deveria ser. Porque a verdade é que criar opinião dá trabalho. Leva tempo investido em ler, assistir, ouvir, debater, pesquisar, estudar, porque é preciso entender sobre o tema, pensar, refletir, analisar, refletir outra vez, comparar, anotar e numa última reflexão chegar lá. Quem tem tempo para tudo isso? Não era muito mais fácil quando crianças, deixar todo esse trabalho para papai e mamãe, receber a opinião mastigadinha, pronta para ser digerida?

E assim buscamos por líderes, pessoas de confiança, que ocupassem esse novo papel por todos nós. Essas pessoas, altruístas e inteligentes, com muito mais acesso a informações, poderiam fazer toda a análise e trazê-la pronta às nossas bocas, como uma mamãe pássaro que entrega a comida mastigada aos seus filhotes. Ora, é muito mais fácil ver as fotos postadas nas redes sociais daquele influenciador que viajou, conhecer aquele país através de suas fotos, do que dispender tempo e dinheiro em uma viagem para ter minha própria visão. É mais fácil, é mais cômodo, mas todo mundo ainda prefere viajar, não?

Eu sei que eu prefiro. Eu prefiro ver os países, obras de arte, construções e paisagens com meus próprios olhos. Até mesmo porque aquela vizinha da minha prima detestou conhecer aquela praia no fim de ano, enquanto eu amei. Porque somos pessoas diferentes, com gostos diferentes. E parece óbvio quando digo isso, não?

Mas porque não pensamos assim quando tratamos de política? Por que tanta gente prefere repetir aquela mensagem polêmica circulada por mensagem, quando bastava pesquisar ou ler um jornal para saber que não passava de outra fake news? E aqui nem tratamos do óbvio, afinal, quantas destas notícias falsas são tão absurdas que qualquer mínima reflexão permite ao leitor perceber que não podem ser reais?

Trocamos o real pelo mais fácil. Deixamos de lado o nosso senso crítico em troca de meias verdades ditas por quem mal conhecemos. Quando pequenos, repetíamos com facilidade, pois acreditávamos cegamente que nossos pais sabiam melhor, que nossos pais eram donos da verdade. Mas como adultos, se nos colocarmos na posição infantil de idolatrar uma pessoa, repetindo suas fake news sem qualquer senso crítico, nos tornaremos apenas filhotes cegos sujeitos às migalhas jogadas por aqueles que brincam com poder. 

Texto originalmente publicado no Jornal Gazeta de Alagoas em 12.08.2020, clique neste link.

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