Fome de Certezas

apartments, architecture, balconies

Era um daqueles dias em que é impossível distinguir que dia realmente é. Confinados, em tentativas frustradas de configurar uma nova rotina em nossa realidade pandêmica que, esperávamos, fosse temporária. Inconscientemente corria à cozinha, abria cada porta, puxava gavetas e terminava por observar o interior da geladeira imerso em frustrações. Minha mãe observava tudo, sentada na sala a ler um romance, os óculos quase caídos de seu fino nariz.

— O que você está procurando? — ela disse, virando o livro para baixo, ainda aberto, no sofá.

— Não sei! — eu exclamava frustrado. — Só quero comer.

— Quer algo doce ou salgado? — ela perguntou vindo em minha direção.

— Hmm… salgado, acho. É, salgado, com certeza.

— Algo quente? Ou gelado? Seco ou cremoso? — ela perguntava sorrindo e já mexendo gavetas como se adiantasse às minhas respostas.

— Quente não, tá calor.

— Então seco também não.

— Não mesmo. Algo leve, só para mastigar mesmo, sabe? — eu me virei e a vi com a tábua na mão, apoio-a sobre a bia e cortou pequenos cubos de um grande queijo de bordas cor de rosa. Perfeito.

Agradeci com um beijo e voltei ao meu confinamento particular, no quarto onde passava as tardes em busca de tarefas e ocupações que me afastassem com segurança da loucura. Fora assim desde o primeiríssimo dia de quarentena, apesar de que apenas passados os quatorze dias — e desaparecidas a febre e tosse que me derrubaram, que pude sair do quarto para buscar meu próprio queijo. Nesses terríveis quatorze dias em que a comida era deixada na porta, a qual eu, com luvas e máscara, tinha de abrir e fechar rapidamente, apenas o suficiente para pegar o prato de comida preparado para mim.

Fora o tédio absoluto que me cercava nesses dias, havia essa amarga solidão com a qual não sabia como lidar, focado em uma contagem incessante da passagem do tempo até que a liberdade me fosse devolvida. Mas ela não foi.

No décimo quinto dia, ansioso, finalmente liberado, saí do quarto como um soldado que volta da guerra. Abraços apertados na mãe e no pai, o esquecido prazer de comer à mesa, todos juntos, ou de simplesmente assistirmos em grupo a algum programa de televisão na sala de estar. O conforto da presença física que aquecia meu coração até então apertado. Não atoa as expedições à cozinha se tornaram frequentes. Tanto tempo confinado no quarto que agora sentia prazer no simples movimentar-se entre um ambiente e outro. E a fome, bem, é claro que é prazeroso comer o que quer quando quer, quando por tantos dias ficava a esperar o horário que a comida fosse postada para só então comer, sem sequer ver de antemão o que comeria. A liberdade de movimentar-se e de olhar, escolher, pegar, nunca antes fora tão apreciada. A liberdade condicionada, onde aprisionados, uns acima dos outros, enclausurados em nossos próprios medos, buscamos pelas mínimas possibilidades de liberdade, para nos sentirmos vivos outra vez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *