Insônia e luar

buildings, city, lights

Estou deitada há tanto tempo que a cama está quente, mesmo com a baixa temperatura do ar. Quantas vezes já virei para um lado e outro? Algumas. Perdi as contas. Por que não consigo dormir? É o som dos estranhos que conversam no bar, a maldita janela que não impede a entrada dos risos, as falas animadas de amigos que se reencontram, ou talvez se vejam sempre, não dá para desvendar só pelo som das risadas. Escuto uma moto, escapamento claramente alterado, o som alto, ardido, invasivo, cortando o ar da noite serena de inverno.

Aperto os olhos um pouco mais, chega a coçar, mas não coço. Se começar sei que não vou mais parar. Tem até uma frase bem clichê sobre coceira, qual era mesmo? Não vou me lembrar agora. Queria dormir. Queria cair no sono assim, de repente, nem perceber, mas quanto mais quero, mais o sono se afasta. O som de carros passando na rua, logo abaixo da janela do quarto. O que estava pensando mesmo? Não lembro. As risadas pararam.

—Mas uma coisa é esconder, outra completamente diferente é mentir. Mentir não dá. — Escuto uma voz masculina lá debaixo. Alguém parece concordar e de novo alguns carros passam, talvez seja um caminhão, o barulho é mais agudo, mais forte, encobre as palavras.

Que dizia ele? Eles concordam? Não consigo mais ouvir. Curiosa é que não conseguirei dormir. De que custa falarem com mais clareza? Já que estão bem abaixo da minha janela, falando tão alto em plena madrugada, o mínimo que poderiam fazer é me deixar ouvir melhor a conversa.

—Olha isso! — Escuto de repente. Me esforço para ouvir, congelo meus membros, congelo o ar, seguro a respiração para que nada atrapalhe a chegada do som, mas quanto mais me esforço menos escuto.

Olha o que? Será que falam de algo na rua? Será que falam de algo em seus celulares? Riem novamente, as vozes aumentam mas as risadas são tantas que não consigo distinguir as palavras. O som começa a se misturar e parece se tornar mais grave, um distanciamento. Sei para que direção estão indo, é para longe de mim, não? Aquela professora chata falou sobre isso na aula de física no ensino médio, faz muito tempo, agora confundo. O som fica agudo ou grave dependendo da direção, é um fenômeno físico, mas qual? Não me lembro. Poderia pegar o celular e pesquisar, mas isso afastaria de vez o sono. Não, preciso dormir. Tenho que acordar cedo e entregar o relatório de vendas, qualquer mínimo atraso e o encarregado vai adorar a oportunidade para outra bronca. Certeza que ele não dorme direito também, única explicação para tanto mau humor e cobranças. Será que pessoas conversam em voz alta abaixo de sua janela também? Ou ele apenas tem insônia? Devem haver remédios para isso, não? Não, ele com certeza tem algum motivo externo. Ou interno, é. Ele tem cara de quem negaria um problema psicológico e deixaria de se tratar, esse tipo de coisa causa insônia.

Escuto uma moto bem próxima, talvez esteja entrando no prédio. Ela ronca forte e para, provavelmente um entregador de aplicativo. Onde estão as vozes? Não as escuto mais. Será que foram embora?

Se eu abrir a janela talvez veja, mas para isso teria de levantar. Sinto a cama quentinha, o ar gelado tocando apenas meu rosto. Não, não tem importância. Provavelmente foram embora. Conversaram, riram, talvez tenham bebido, muita gente bebe na rua esse horário, em grupo. Fizeram tudo isso e nada de eu dormir. Preciso de uma nova estratégia.

Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneiros. Ou seriam ovelhas? Talvez sejam ovelhas. Quatro ovelhinhas. Não, assim não soa legal. São carneiros mesmo. Cinco carneirinhos. Seis. Sete. Oito. Não, sem os carneirinhos não parece certo. Talvez deva pensar em uma música, daquelas bem relaxantes. Alguma sinfonia antiga, será que consigo me lembrar de alguma? Os anos de conservatório devem ter servido para alguma coisa. Lembro da Fernanda, tocando piano lindamente, tão perfeita que me fez perceber o quanto eu mesma não era, nem seria. Não, a única música que eu tocava decentemente era aquela que papai um dia me ensinou. Ah, eu adorava ouví-lo tocar. Só de lembrar de suas mãos, ágeis e delicadas, martelando junto às teclas do grande piano de madeira escura que engrandecia nossa sala de jantar, me vem um sorriso ao rosto. Como era mesmo? Sol, sol, fá…. Ré, fá, ré…. Do, ré, do, fá, do…

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