Livros são melhores que pessoas

Pessoas magoam. Machucam. Ferem. Comumente dizem que não tinham a intenção, mas a verdade é que tem, sim, intenção. Disferem palavras cuidadosamente escolhidas pensadas na dor que causará. Depois, e quase sempre quando já é tarde demais, dizem-se arrependidas.

Quando eu tinha oito anos, meu pai faleceu em um acidente. Foi tudo um rebuliço de descobertas para mim. Primeiro com todo o processo de traslado de um corpo, que nunca havia vivenciado, depois todas as visitas e providências necessárias ao funeral. Já comparecera a diversos velórios, de tios e outros parentes, mas nunca como parte central dos familiares do falecido. É uma experiência desgastante, meio sem propósito, na minha opinião. Em especial quando se é uma criança de oito anos.

Meus pais ficaram juntos por muitos anos, mais de década, e eu e minha mãe achávamos que conhecíamos muito bem meu pai, tanto em seu lado alegre, brincalhão, com os amigos, quanto em seu lado assustador, em casa. E foi uma surpresa marcante quando, após sua morte, começamos a descobrir que não o conhecíamos tão bem quanto pensávamos. Conforme novas histórias apareciam, novas pessoas, papéis, objetos e documentos, descobrimos muitas coisas que jamais imaginaríamos sobre meu pai. Foi quando descobri que não importa o quanto você pense que conhece uma pessoa, você nunca saberá tudo sobre ela. Uma das primeiras grandes lições que a vida me deu.

As pessoas passam anos e anos convivendo, compartilhando suas vidas, intimidades e planos, e confundem essa vivência com o conhecimento. Ora, metade das pessoas não conhece nem a si mesmas direito, que dirá conhecer o outro. E mesmo assim caímos nessa ilusão. Mesmo quando conscientes desse lado obscuro que todos temos, das diversas faces em que o ser humano pode se alternar.

Talvez por isso tenha me encontrado mais bem acompanhada em livros. Não importa a situação, os livros serão os mesmos. Não importa o tempo, o ano, o lugar – as frases serão as mesmas, os personagens agirão da mesma forma e o resultado será igual. Nossa interpretação pode mudar, atingindo novos níveis de identificação conforme nossas próprias experiências de vida, mas as palavras que ali foram escritas, permanecerão.

Já o ser humano, ele é volúvel. Ele tende a fingir ser firme, decidido, cheio de si, muitas vezes, mas é, na verdade, como um enorme cubo mágico, que mostra suas cores e lados conforme cada movimento, que formam cerca de 43 quintilhões de combinações possíveis. Um belo dia você pode fazer alguns movimentos errados e deparar-se com um lado novo, que nunca imaginava.

Não tenho medo de manter em minha estante os mesmos livros por toda a minha vida. Aqueles que amei, cuja leitura me marcou de alguma forma, aqueles que por qualquer motivo me fazem bem. Sempre poderei abri-los e encontrar, naquelas páginas, as mesmas palavras. Eu posso mudar, mas eles não mudarão. Essa é minha sorte do dia: livros são melhores que pessoas, pois são exatamente o que dizem ser.

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