Não parecia real

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No começo era excitante. A excitação do desconhecido que chegara tão perto. Mas era excitante exatamente por não ter risco. Pairavam dúvidas, emoções, mas o medo sequer cogitava nascer.

Não me lembro com exatidão da primeira vez que ouvi sobre a doença, mas em algum momento por volta do carnaval de 2020 a palavra começou a soar mais e mais familiar. O uso se tornou frequente nos programas de televisão, mas o todo ainda era tão distante que não tínhamos consciência de medo. Sentia compaixão e tristeza pelas notícias distantes, como quando assistimos a filmes ou relatos sobre furacões do outro lado do mundo. Empatia e tristeza marcados por um distanciamento. Não nos sentíamos inseguros, de modo algum.

Nunca fui grande fã de aglomerações, mas nos últimos anos vivia em intensa determinação de experienciar. Não queria me tornar uma pessoa frustrada ou ignorante que deixou de conhecer o mundo em seu todo, freada em preconceitos que me foram passados. Como toda jovem de minha geração, lutava para não ser como minha mãe, e nessa luta encontrei vivências incríveis, e algumas que entendi não me serem cabíveis. Mas o fiz com experiências minhas, únicas e livres. Assim passei a descobrir diversão, prazeres impensados e a liberdade de uma vivência sem preconceitos, até mesmo musicais.

O carnaval era para ser uma destas vivências. Tinha tido poucas experiências com ele, e a única vez que lhe dei uma chance, nas tradicionais do interior de Minas Gerais, fui decepcionada com assaltos que me impediram de aproveitar a festa em si. Então naquele ano havia muita expectativa. Maquiagem, glitter e fantasias, uma seleção dos melhores blocos da cidade e um grupo de amigos dispostos; tudo parecia perfeito. Mas foi lá, no tal do empurra-empurra musical de uma festa de rua, que senti pela primeira vez o perigo da minha vulnerabilidade.

Pele à mostra, cercada de estranhos que não tinham opção se não encostar uns nos outros para seguir o percurso, bebidas jogadas para o alto (Era bebida? Tinha cuspe? Tava quente? Era xixi?). Compartilhamento de copos, cigarros, drogas, saliva, num lugar comum em que pessoas de todas as idades se sentem livres para se soltar e seguir um caminho em nome do que acreditam, ou do que sentem. Por respeito, escolho omitir minha verdadeira opinião sobre o evento, limito-me a dizer que não vejo entretenimento em ser empurrada e suar em um calor intenso ao som de músicas distorcidas pelas vozes que me cercavam. Se ouvi uma música inteira, foi muito. Tudo o que queria era uma cadeira confortável, uma bebida gelada e um pouquinho de espaço pessoal.

O que posso dizer é que bem ali, em meio ao caos carnavalesco, em meio ao nojo da inexistência de higiene, recordava dos noticiários recentes, da Itália e das tantas pessoas que eu conhecia que viajavam constantemente para a Europa. Um momento especialmente marcante, que naquele momento me voltou, foi de uma noite em que eu, de pijama, me preparava para dormir, quando escutei mais uma vez sobre a doença na televisão ligada. O chanceler do Irã havia dado uma coletiva, em meio à própria tosse, confirmando sua contaminação. Ficamos em pé, braços cruzados, uma tensão inesperada que irradiava pelos músculos da minha nuca enquanto ouvia as notícias sobre o Irã e a Itália, que agora tinham mais casos que a China, onde tudo começou.

Lembro de olhar preocupada para minha irmã, que parecia chocada ao meu lado, também em pé e sem palavras. O mais assustador é que parecia que assistíamos a algo estranhamente familiar. Quantos filmes sobre desastres e invasões alienígenas não possuem cenas exatamente como aquela? Mas ainda assim, nada daquilo parecia real. Era distante ainda. Me lembro de pensar que apenas pareceria real quando nos atingisse.

Hoje, atingidos em cheio, o país em completo caos, continuo me questionando: por que não parece real? Saio para comer, vou à academia para manter meu corpo-de-verão preparado para a praia no final de ano, visito amigos, em pequenos grupos, claro, mas por mais que a máscara – um objeto que nunca havia utilizado, agora seja um lembrete constante da grande mudança mundial, não sinto pânico, ou medo, ou preocupação. Afinal, ninguém que eu conheço morreu ainda, né? Quem sabe quando acontecer finalmente pareça real.

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