O menino na escada

stairwell, stairway, stairs

Foi no brevíssimo período em que morei em um prédio antigo e mal cuidado no centro da capital. Havia me mudado com muita pressa e fui facilmente enganado por fotos antigas de um site de aluguéis. Sem paciência para procurar um hotel, acabei aceitando a moradia humilde enquanto minha secretária se responsabilizava por encontrar outras opções a uma distância saudável da avenida em que a empresa se estabelecera. Logo nos primeiros dias, fui recebido no prédio com seu único e barulhento elevador decorado com uma placa escrita à mão – “quebrado”.

Bufei e me apressei em direção às escadas, atrasado para uma reunião, já antecipando a dor muscular dos dez andares, quando me deparei com o menino.

Parecia ter uns quinze anos, e estava sentado em um dos degraus. Observei enquanto ele jogava os pequenos tocos abaixo de seu quadril para o lado. O menino inclinou-se, apoiando as mãos no degrau seguinte, e impulsionou o corpo para descer. Assisti por alguns segundos ele descer mais um degrau, então lhe perguntei o que estava fazendo. O menino me olhou com cara de surpresa e disse: — Ué, tô descendo.

Suprimi um pequeno riso, sempre me surpreendia com a indolência de crianças e adolescentes. Então questionei:

— Mas precisa mesmo descer? Não tem ninguém que possa descer por você?

— Eu fico sozinho, moço. Minha nova mãe trabalha o dia inteiro, e eu fico sozinho em casa depois da escola. A gente não tem tevê, então eu desço pra assistir o movimento da rua com o porteiro. Ele me ensinou a jogar buraco!

— Mas como você sobe depois se o elevador ainda não estiver funcionando?

— Ué! Do mesmo jeito. — O menino o encarou como se fosse óbvio. — Um degrau de cada vez. Já tô acostumado, isso acontece toda semana, sabe? O senhor é novo aqui, mas logo acostuma. O prédio é velho então o elevador não dá conta.

Fiquei perplexo por um momento pensando em seu dia a dia. Descer e subir, degrau a degrau, todos os dias. Recordei-me de dois anos antes, quando tive uma torção no pé. Foram dias com o pé imobilizado em uma bota quente e incômoda, andando com dificuldade. Faltei ao trabalho, aproveitando o home office, pois era insuportável andar pelas salas do escritório mancando, com todos me olhando.

— Tem certeza que não é melhor ficar em casa e descansar? É cansativo demais subir e descer sozinho desse jeito.

— Não, moço. Eu preciso de um pouco de vida. Sabe, não tenho do que reclamar, aqui pelo menos posso descer as escadas.

Encarei o menino pensando em minhas próprias reclamações, no meu desânimo em descer as escadas, sendo um homem adulto e saudável. Ele continuou:

— Dei foi sorte de ser trazido pra cá. Não me importa o andar. Ruim não é descer degrau a degrau, ruim era no orfanato. Até tinham uma cadeira de rodas surrada que eu podia usar, mas como não tinha elevador, me confinaram a um quarto improvisado no térreo, longe da cozinha, das atividades e das outras crianças. Não me deixavam descer ou subir as escadas sozinho, diziam que fazia mal, que podia machucar meus braços e ombros. Mas também não tinha ninguém que fosse forte o suficiente para me carregar, ou isso era o que diziam. Sei que ficava trancafiado lá, igual aquela menina da torre, da história de dormir, sabe?

Fiquei confuso com a tagarelice, e me sentei em um degrau ao lado do menino.

— Quanto você pesa? — suspirou.

— Sei lá, moço. Minha nova mãe deve saber. Por quê?

Olhei para ele e presumi uns cinquenta quilos. Devia ser capaz de carregar o menino.

— Quer que eu te carregue lá pra baixo? — perguntei, pensando fazer algum bem.

— Tá doido? Eu lá tenho cara de boneca pra ser carregada por aí, moço? — Respondeu o menino, ofendido. Virou-se e recomeçou sua decida, degrau a degrau, a cabeça inquieta repetindo seu desgosto pela pergunta. Quando percebeu que eu ainda o observava, parou: — Vai ficar aí olhando? O senhor não é um tarado ou algo assim né? Eu não tenho pernas, mas tenho garganta, e eu grito viu!

Desejei um bom dia ao menino e desci as escadas, sem pressa, rindo. De início não entendi o porquê de o menino não aceitar ser carregado, mas pensando bem, quando quebrei a perna eu também não aceitei ajuda, e consegui me virar muito bem. A verdade é que o menino não precisava da minha ajuda, eu quem precisava ajudá-lo para me sentir melhor, ou talvez justificar meu atraso na reunião. Dizer apenas que dormi além da hora me faria parecer desleixado, mas um órfão aleijado, bem, minha jovem secretária ficou toda orgulhosa quando contei uma versão dessa história.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *