O poder da palavra

Minha mãe sempre disse que “a palavra tem poder”. A palavra pode machucar, pode incentivar, e como ficou ainda mais claro nesse Seis de Janeiro, a palavra pode destruir um Estado.

Já tem um tempo que comecei a prestar atenção na escolha das palavras. Muita gente tem levantado questionamentos sobre isso, especialmente dentro da mídia. Um adolescente negro é preso por suspeita de estar com drogas, e antes mesmo que se finalizem as investigações, a chamada diz “Traficante preso”. Um jovem branco, quase sempre de classe alta, é preso com quilos e quilos de drogas em seu veículo, e a chamada diz “Universitário é investigado por suspeita”.

Por algum tempo me questionei sobre o quanto os jornalistas, redatores, e seja lá quem estivesse por trás de tantas manchetes, teriam consciência na escolha das palavras. Seria apenas consequência do racismo estrutural? Ou algo pensado e intencionado?

O interesse político por trás dessas manobras do idioma fica claro quando analisamos as manchetes de manifestações. Quando pessoas foram às ruas, pedindo o direito de suas próprias vidas, no movimento mundialmente conhecido Black Lives Matter, foram escolhidas palavras como tumultuantes, baderneiros, vândalos. A resposta policial foi violenta.

Até mesmo a palavra “militante”, utilizada há décadas para denominar aquele que defende ativamente uma causa, foi cuidadosamente associada nos últimos anos a movimentos típicos da esquerda, como comunistas e socialistas, de forma negativa, incentivando a utilização da palavra como algo pejorativo.

Ao assistir às imagens do Capitólio sendo invadido me vieram à mente dezenas de filmes hollywoodianos. O roteiro é previsível – uma ameaça terrorista estrangeira, um policial com passado traumático que se vê preso dentro da Casa Branca e é responsável por salvar a nação. Dez pontos para cada cena da bandeira americana caindo em câmera lenta, trêmula, em meio à fumaça causada pelo caos da invasão.

Talvez – e esse é um talvez um tanto irônico – esse Estados Unidos promovido em tantos filmes de ação e suspense se mostrasse, com seu poder de fogo e organizado esquema de segurança nacional, caso a invasão fosse negra ou estrangeira. As manchetes falariam sobre o perigo dos terroristas que ameaçaram a democracia.

Mas as manchetes dizem “manifestantes”. Eles quebraram, invadiram, destruíram, ameaçaram e enfrentaram aquela que sempre se colocou como a força policial mais potente do mundo. Por muito menos (na verdade, por absolutamente nenhum motivo que não fosse o racismo), Geroge Floyd perdeu a vida. Quando o terrorismo é praticado por homens brancos de extrema-direita, que ameaçam a democracia abertamente, sem medo, muito pelo contrário, bradando um orgulho abismal de sua violência – nesse caso assustador, a força policial fica acuada. Não há violência em resposta, afinal, são apenas manifestantes.

Essa semana, coincidentemente, lendo a história de Trevor Noah, me deparei com uma frase que poderia ser sobre o dia de hoje, mesmo que eu ainda não o soubesse.

“A genialidade do apartheid foi convencer a grande maioria da população de que as pessoas eram inimigas umas das outras. ‘Separados pelo ódio’ era a ideia por trás desse regime. Basta segregar as pessoas em grupos e fazê-las se odiar para tornar possível o controle de todos.”

Texto originalmente publicado no Jornal Gazeta de Alagoas em 08.01.2021, clique neste link.

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