O Vazio Imune

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Acordei no final de semana deste feriado prolongado apenas para sentir um gosto amargo de decepção. O feriado veio muito bem-vindo, dentro de uma rotina cansativa equilibrando cuidados da casa, trabalho, estudos, família. Todos estamos cansados, todos queremos um drink gelado frente à brisa do mar, cercados por uma bela paisagem. Todos queremos qualquer gosto de normalidade, mas será que somos tão egoístas e autocentrados a ponto de ignorarmos instintos básicos de sobrevivência?

No começo de 2020 todos assistimos às tristes imagens de uma Austrália desolada por queimadas. Os animais, movidos pelo instinto e a vontade de sobreviver, fugiam desesperados do fogo alto que os cercava. Alguns subiam em árvores, outros corriam o mais rápido possível, e assim poucos conseguiram sobreviver. Eram apenas animais, irracionais como aprendemos na escola, mas capazes de compreender o risco.

Hoje revi essas imagens com um aperto no coração, e um único questionamento: quando foi que nós, humanos, deixamos nossos instintos de lado?

Não precisa buscar muito para encontrar inúmeros relatos, a maioria em vídeos, de humanos desafiando a morte. A estupidez natural, a incansável buscar por likes em redes sociais, a consciência de grupo, são inúmeros fatores que explicam a busca por atitudes perigosas, mas em algum ponto essa estupidez se tornou maioria, lotou praias e riu da morte, gravou vídeos gritando “F*da-se a vida”, e o pior: sentiu orgulho desse desafio.

Seria essa uma necessidade intrínseca de desafios? Ou estamos todos tão egocêntricos ao ponto de acreditar que a humanidade sempre irá encontrar uma cura, uma resposta, e sempre vencerá o risco? Fechamos os olhos para as vítimas, cientes de que estamos imunes, que somos protegidos, superiores, melhores e, portanto, não há motivo para nos preocuparmos. E enquanto fechávamos os olhos e curtíamos a praia, quantos cientistas, médicos e enfermeiros morreram lutando contra uma doença sobre a qual ainda desconhecemos tanto?

Fomos de pessoas que lutavam pelo direito de amar, de votar, de sermos tratados com igualdade, para pessoas que lutam pelo direito de espalhar o fogo por toda a floresta e queimar todos ao redor. Escolhemos nos deitar e aproveitar o quentinho do fogo, assistindo sorridentes e pousando para belas selfies enquanto este fogo nos consumia. A incessante busca por prazer mostra o lado mais vazio da nossa sociedade. Não conseguimos nos isolar porque precisamos constantemente das aglomerações, dos outros, precisamos ver e sermos vistos, porque criamos uma ideia de prazer baseada no outro. Somos importantes quando os outros nos dizem que somos importantes, nossa vida é boa quando os outros validam nossas escolhas, passeios, relacionamentos. Não conseguimos ficar sozinhos com nossas próprias mentes pois somos vazios.

Ninguém foi para a praia porque sentiu falta de normalidade. Lotaram-se as praias pelo mesmo motivo que se lotaram as redes sociais: nos tornamos seres instantâneos, sem futuro, sem orgulho, sem conteúdo.

Texto originalmente publicado no Jornal Gazeta de Alagoas em 11.09.2020, clique neste link.

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