Por que eu não escrevi sobre a pandemia

face mask, tree, ornament

Assim que teve início a quarentena, as pessoas pareciam desesperadas por compartilhar. Parecia um simples efeito da sociedade que, na última década, migrou completamente para um estilo de vida baseado em seguidores e likes. Todos já caminhavam para um isolamento tecnológico na última década, mas foi na ausência de saídas que muitos se viram desesperados pelo afeto, carinho, olhares e atenção, o que gerou inúmeras postagens numa bola de neve que tomou as redes sociais. Cantores exibiam sua música, artistas exibiam sua arte, e pessoas sem nada para dizer disponibilizavam horas e horas de seu rosto ao vivo, simplesmente para falar no desespero de serem ouvidos.

Em meio a tanto barulho, me calei. Já há algum tempo entendi que minha maior contribuição ao mundo vem por meio da observação. Cada linha que escrevo nasce de tudo aquilo que observo e absorvo de meus arredores, e em uma experiência em que as pessoas se viam desesperadas por expor-se, me coloquei disposta a observar. Não foi fácil e por dias aquilo me causou mal estar.

De início, não sabia dizer se as pessoas estavam expondo aqueles pensamentos por serem genuinamente ruins ou se a situação caótica da pandemia aflorava o que nelas havia de pior. Na maior parte das vezes me choquei com o ódio, ignorância e desrespeito dissimilados nas redes sociais. E por sorte, como que unicamente para me mostrar que ainda havia esperança, pude observar aquilo que valia a pena ser observado: alguns seres humanos ainda conseguem (e se dedicam a) ser bondosos. É uma escolha, e por mais que pareça que o mundo escolheu o ódio, ainda existem aqueles que escolhem o amor, e assim lutam pelo que há de bom no mundo.

Nesses pequenos momentos percebi que apenas conseguiria uma perspectiva exata das mudanças que a humanidade viria a sofrer durante essa crise, ao olhar o todo. Por isso me abstive de expor e, durante toda a quarentena, que ainda persiste, por mais que tantos arrisquem a vida em tentativas de normalidade; permaneço dedicada a observar e anotar. Essas anotações não apenas se tornaram um diário de minhas perspectivas, mas tem me ajudado a passar por esse período, e espero que algum dia me ajudem a rever o lado bom que resta na humanidade.

Imagino que seja difícil para você, leitor, ir na contramão dos modismos que nos cercam. Mas se posso dar um conselho, não vou dizer para ninguém fugir das redes sociais, desligar as televisões ou remar contra a maré apenas pelo orgulho de se considerar diferente. Meu único conselho é: sejamos honestos com nós mesmos. Cale quando for seu desejo calar, fale quando for seu desejo falar. Se é algo que vem de você, mesmo que seja a moda, mesmo que não seja inédito, único, inovador; será especial simplesmente por ser você.

Minha visão pessoal é, na verdade, bem simples: preciso viver toda a pandemia antes de achar que posso compreendê-la. O distanciamento é essencial para que eu compreenda qualquer coisa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *