Resenha: Anjos do universo

Alguns livros são difíceis de ler por serem muito longos. Outros, por serem – sejamos honestos – simplesmente chatos. Alguns são exageradamente detalhistas, outros são frívolos demais, mas todo leitor já se deparou com algum livro que se tornou uma pedra. Este foi um Everest.

Não classifico dessa forma devido ao seu nível de dificuldade como geral, mas como exclusivamente minha, pois o livro me lembrou, palavra a palavra, de situações vividas com uma pessoa muito próxima e que amo muito.

A história vai e volta no tempo, e nas alucinações, do personagem principal, Páll, e mostra, literalmente, sua decadência.

‘Anjos do Universo’ é um romance dividido em duas partes. Na primeira mostra a infância e adolescência de Páll, ele não era mais desregrado ou hostil que seus amigos, e seus sonhos não eram mais violentos ou fantásticos que os deles. No entanto, ele sempre teve muita dificuldade em se envolver; ele esconde suas emoções, mas se deixa levar por surtos de bebedeira e explosões de temperamento agressivo. A segunda metade do romance trata dos muitos anos que Páll passou dentro do Kleppur, apesar da sua extravagância muitas vezes assustadora, as pessoas a quem ele faz companhia no hospício rememoram as obsessões e agressões daqueles que povoavam sua vida externa na cidade, lembrando-nos da selvageria dos sonhos daqueles nunca estiveram ou poderiam estar num manicômio.

É um relato triste e desesperador da vida dos doentes mentais. Não só do sofrimento interno de cada um, da luta contra sua própria mente e das dificuldades de lidar com a realidade e com as pessoas, mas também tratando do preconceito e do modo como as pessoas tratam estas pessoas.

É evidente que entendo a realidade tão pouco quanto ela me entende. Quanto a isto, estamos quites. Porém, ela não me deve explicação alguma a respeito de qualquer coisa, ao passo que eu continuo tendo de responder perante ela. Claro que seria bom poder dizer o que disse o filósofo alemão Hegel quando alguém afirmou que as suas teorias não correspondiam a realidade: – Pobre realidade, não deve ser nada fácil para ela. Escritores podem escrever isto. Filósofos podem dizer isto. Já nós, que estamos internados em sanatórios e instituições, não temos qualquer defesa quando nossas ideias não correspondem à realidade, pois, em nosso mundo, os outros é que tem razão e conhecem a diferença entre o certo e o errado. A nuvem de medicamentos paira no ar, como se os dias tivessem deixado de ser mover.

A história começa com uma certa leveza, mas logo na adolescência quando surgem os primeiros sintomas da doença o livro se torna pesado, escuro, difícil. O autor é tão brilhante nas narrativas, que muitas vezes o leitor se encontra em dúvida sobre o que está lendo, não sabendo se aconteceu de fato ou se trata de outra alucinação de Páll.

Ao longo do livro conhecemos seus colegas do Kleppur, hospital psiquiátrico, e cada um tem suas peculiaridades e episódios, cada um encarna seus personagens e luta contra sua própria mente de sua maneira, mas o que fica claro é que não importa como lutem, eles nunca vencem.

O que mais doeu em mim foi ler o modo como estes personagens são tratados no Kleppur, ver o modo como as pessoas os veem e como o hospital só serve para realmente piorar seu estado emocional.

É uma leitura totalmente válida para aqueles que não tenham sensibilidade quanto ao tema. Eu identifiquei semelhanças demais no livro, o suficiente para me deixarem abalada e me fazerem sentir falta de meu irmão mesmo com todos os seus problemas e manias.

Pra quem gosta de drama é uma ótima opção. Além do mais é sempre interessante conhecer algo fora da nossa bolha. Esse livro é islandês e ganhou diversos prêmios, internacionais, e confirmo que é sim de extrema qualidade, entretanto até recebê-lo da editora Hedra, eu nunca havia ouvido falar a respeito.

O jovem Páll tenta lidar com problemas de identidade e a dificuldade de controlar suas emoções, se deixando levar por surtos de bebedeira e explosões de agressividade. Na segunda metade do romance vemos os muitos anos que Páll passa dentro do hospício Kleppur e os personagens que ele encontra lá. Surge o questionamento: em meio à agonia mental cotidiana, como se pode chegar a um retrato aceitável da sociedade ou mesmo da existência em si? No fim de sua vida, Páll, o protagonista e narrador de Anjos do universo, relembra um verso de uma canção de uma canção de David Bowie: “Day after day, they take some brain away”. As palavras de Bowie poderiam muito bem servir como mote para todo o romance, no qual Páll, do outro lado da tumba, tenta entender como se afundou no mundo violento e sombrio da esquizofrenia até o seu aprisionamento no Kleppur, o hospital psiquiátrico “semelhante a um enorme palácio situado à beira-mar” em Reiquiavique, e sua decisão (aos quarenta e poucos anos) de trocar a tensão da vida pelo distanciamento da morte. O uso da letra de Bowie tem bastante significado: Einar Már Gudmundsson (nascido em 1954), talvez o mais célebre escritor islandês de sua geração, é creditado pela liberação da escrita séria no seu país a partir da inspiração de ícones do mundo contemporâneo. Páll é movido por ídolos do rock e do punk, mais do que pelos respeitados heróis das sagas; mais por Beatles, Zappa e Bowie do que Njáll e Egill.

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