Resenha: As Pessoas Parecem Flores Finalmente

Meu amor por Bukowski é totalmente bagunçado e muitas vezes nem eu mesma consigo compreendê-lo.

Ouvi um de seus poemas pela primeira vez em um filme – não faço ideia de qual. Só marquei seu nome. Era um poema que parecia descrever meus pensamentos, e jamais me senti tão perplexa com tão pouco. Por muitos anos conservei na memória o nome, sem nunca chegar a procurar um livro seu – não entendo o porquê.

Acontece que descobri seus diversos livros e me encontrei em total dúvida sobre se deveria mesmo quebrar o encanto e ler seus livros, ou se isso seria decepcionante demais visto que idealizo um gênio há tempo demais.

Acabei ganhando esse livro no meu aniversário de uma das pessoas mais lindas da minha vida, e me forcei a ler. Amei, e como amei!

Em um poema publicado postumamente, Charles Bukowski (1920-1994) escreveu que teria tido êxito na vida “se vocês lerem isso muito tempo depois de eu morrer”. Pois bem, a julgar por esse critério, o velho safado de fato teve êxito: este é o quinto e último volume póstumo composto integralmente por poemas inéditos. Dividido em quarto partes, o livro foi publicado nos Estados Unidos em 2007, com grande aclamação de público e crítica. As composições da primeira parte versam sobre incidentes ocorridos antes de Bukowski começar a publicar mais prolificamente, na década de 1960. A segunda parte reúne textos sobre mulheres. A terceira, sobre loucuras e vicissitudes da vida cotidiana de um escritor; e a quarta parte exemplifica a sabedoria bukowskiana. Versos broncos sagazes, rápidos, testemunham sua devoção a corridas de cavalos, boxe e bebida; suas aventuras e seus fracassos sexuais; seu desprezo por literatos empolados e seu ambivalente anseio por fama literária. Parte dos poemas é pura nostalgia; alguns dos mais memoráveis registram as ansiedades do artista e seu deleite ao cuidar da filha bebê. Um tom observacional, reflexivo, permeia o livro do início ao fim, fazendo deste, para muitos leitores, um de seus mais pungentes volumes poéticos.

Ao invés de me decepcionar, me apaixonei outra vez. Talvez seja complicado para aqueles que não gostam da escrita de Bukowski, ou de seu linguajar e modos, mas sinto uma identificação absurda quando leio seus textos, me encontro e me compreendo.

Sua poesia é direta, rápida, cheia de desprezo e sarcasmo, relatando acontecimentos e divagando abertamente enquanto surgem leves reflexões entrelinhas. Me encantei com alguns, li para amigos e percebi que estes interpretaram de forma totalmente diferente da minha. Muitos não entenderam, se confundiram, detestaram, mas quem entendeu se identificou em algo, se conectou.

Sua escrita é extremamente sincera, confusa e cheia de paixão com os claros traços do bêbado e, ao mesmo tempo, dignas de um gênio.

Acredito que esta seja uma das resenhas mais difíceis que já fiz, e com motivos. Não há meios de descrever um livro inteiro de cerca de 130 poesias, cada uma com suas peripécias. Algumas são fracas, a maioria é sensacional, e algumas, aquelas algumas, como Neve na Itália, são apaixonantes e intrigantes, e me prenderam completamente.

Deixo vocês com uma das minhas favoritas, pois não há mais como descrever esse livro fantástico.

o minuto
 “eu estou sempre lutando pelo próximo
 minuto”, digo à minha mulher.
 então ela começa a me dizer
 o quanto estou enganado.
 mulheres têm um jeito de não
 acreditar no que seus maridos
 lhes dizem.
 o minuto é uma coisa muito
 sagrada.
 lutei por cada um deles desde a minha
 infância.
 eu continuo a lutar por cada um deles.
 nunca fiquei chateado ou
 sem saber o que fazer em seguida
 mesmo quando não faço nada,
 eu estou utilizando meu tempo.
 por que pessoas têm que ir a 
 parques de diversão ou ao cinema
 ou ficar sentadas diante dos aparelhos de TV
 ou resolver palavras cruzadas
 ou ir a piqueniques
 ou visitar parentes
 ou viajar
 ou fazer a maior parte das coisas
 que elas fazem
 está além da minha compreensão.
 elas mutilam minutos,
 horas,
 dias,
 vidas inteiras.
 elas não têm ideia do quanto
 um minuto
 é precioso.
 luto para entender a essência
 do meu tempo.
 isso não significa que
 eu não possa relaxar
 e tirar uma hora de folga
 mas deve ser
 minha escolha.
 lutar por cada minuto é
 lutar pelo que é possível dentro
 de você,
 de modo que sua vida e sua morte
 não sejam iguais
 às delas.
 não seja como elas
 e você irá
 sobreviver.
 minuto a
 minuto.

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