Televisão

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De todos os objetos de uma casa a televisão é o mais vil. Seria a internet ainda pior, mas por ser incorpórea perde o fator local. Dentro de uma casa podem ter diversos objetos com funções também diversas. Decorar, iluminar, fazer pensar, digitar, desenhar, purificar o ar, limpar, alimentar, aquecer, esfriar, entreter. Defendo aqui que se engana quem encaixa na última categoria a televisão. Não, sua função não é apenas entretenimento.

Há bem mais que isso em toda sua programação. Fosse esse o intento verdadeiro da máquina, dos programas que se acumulam uns sobre os outros criando uma verdadeira prisão da atenção humana da qual nada resulta além do disfarce ao ócio, não teria sido carinhosamente apelidada de Máquina de Fazer Doido, nos anos 70.

Dia desses me deparei com um estudo que dizia que computadores, televisões, videogames e todo esse acesso descontrolado a entretenimentos de fácil consumo e baixa complexidade mental emburrecem. Analisando a realidade brasileira, vemos que nosso povo abraçou a tecnologia com intensidade (como costuma fazer com tudo). Mesmo com uma realidade de pobreza extrema que marca grande parte da população, estudos mostram que 97,2% dos lares brasileiros possuem aparelho de televisão, 45% possuem computador, e 92,6% da população tem um aparelho celular (dados do IBGE, 2016). Podemos pensar que o brasileiro é grande consumidor de entretenimentos, mas em uma infeliz contraposição, o brasileiro lê apenas dois livros por ano e 30% da população nunca comprou um livro (dados do Instituto Pró-Livro, 2020).

E faz sentido, não? Afinal, quem tem tempo para ler livros quando tem tanta coisa interessante e fácil de absorver a todo momento na televisão? Se o brasileiro passa, em média, 9 horas por dia na internet, e 6 horas por dia assistindo televisão, surpreende até mesmo que sejam lidos dois livros em um ano. O livro, afinal, demanda criatividade, compreensão, exercício mental; enquanto a televisão nos joga tudo muito bem mastigado, pronto a ser digerido, quase sempre sem qualquer conteúdo aprofundado.

Quanto mais penso a respeito, mais me parece óbvio que as telas podem emburrecer. Cegar, desnortear, viciar e aos mais fracos, claramente, emburrecer. Como poderiam não fazê-lo, quando tudo o que as pessoas buscam é o não pensar? Nos apegamos aos televisores como um meio de relaxar. Descansar nossos cérebros do dia a dia em que os exercitávamos com tanto afinco que, após a longa jornada de trabalho, nos víamos mentalmente exaustos. Só que em algum momento isso mudou, e me questiono quantos brasileiros, hoje em dia, não fazem qualquer esforço mental. Quando foi que nos tornamos uma nação de analfabetos funcionais?

Bom, talvez a máquina de fazer doido, de fato, fosse a máquina de atrofiamento cerebral. Esse nome, a meu ver, faria muito mais sentido.

Fica o questionamento se o uso moderado, pensado e cuidadoso também apresenta perigo. Afinal, quantos de nós nos vemos como superiores capazes de domar a besta para apenas nos colocarmos talvez um pouco mais lentamente ao alcance de suas garras? 

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