Três tiros

Eu me lembro de quando as ligações telefônicas eram motivo de alegria, o telefone tocava e era sempre uma surpresa boa. Ouvir a voz dos que moravam longe, suas histórias mais recentes, notícias de nascimentos, casamentos, até mesmo fins de relacionamento, mas era sempre um evento gostoso, cheio de conversa e proximidade.

Até que um dia o telefone tocou e eu só consegui ouvir. Não sabia o que dizer. O som da voz que saia do telefone me atingiu como um tiro, a primeira bala que atingiu em cheio meu peito, me deixando sem ar. Até hoje não sei dizer como lidei com tudo. Me recordo de lágrimas, noites em claro, conversas longas com tantas pessoas, questionamentos, palavras escritas e lidas e relidas na tentativa de compreender meu papel em tudo aquilo. Mas o tempo passou, a ferida foi fechando e meu coração voltou a bater, um pouco mais forte, eu diria.

Passaram-se alguns anos e então o telefone tocou novamente. Dessa vez estava um pouco mais apreensiva. A lembrança daquele passado fez meu coração pausar um momento, como se precisasse se preparar para o que estivesse por vir. Foi o segundo tiro. Mas dessa vez não doeu tanto. Meu coração estava preparado, ele imaginava que fosse acontecer. Ele sabia, durante todo o processo de cura, ele sabia que seria machucado outra vez. E assim criou a carcaça mais dura, pronto para se proteger. Não doeu tanto, por mais que doesse. Não senti tanta dor, mas também não senti mais nada.

Por muito tempo permaneci inerte. Respirei, me alimentei, andei e dormi. Trabalhei, estudei. Mas não vivi. Assistia a filmes de modo apático. Não tinha graça, nem emoção, nem gosto. Lia livros, palavra por palavra, sem busca de significados. Queria apenas o consumo como passar do tempo, afinal, tudo acaba em uma ligação. Alguém liga para outro alguém e sabe-se de um fim. Um sem propósito que é o existir à espera da sua ligação, da qual sequer seremos parte ativa.

Pensei que adormecido meu coração estivesse protegido. Que nada mais poderia penetrá-lo, não importava a arma. Mas penetrou. O terceiro tiro veio em cheio, destruindo artérias e veias, mas principalmente, esperanças. Por que por mais que alguém diga que não as tem mais, por mais que se cerque de dureza na busca por fortalecimento, a esperança é impossível de desistir. Sempre se espera algo. Mesmo quando só se espera não esperar. E até mesmo esse resto de esperança foi destroçado. Precisei de três tiros para entender que não é sobre se esconder, fugir, proteger. É sobre viver com as feridas das balas que nos marcaram.

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